"Na verdade eles se entusiasmaram tanto com a paixão entre flâmulas que decidiram mudar o mundo. Num certo dia uma quantidade de 120 mil caixas de um famoso antidepressivo saiu com a seguinte bula: Trepai." (Química - Mara Coradello)
Todo grande gênio que se preze tem ou teve, além da sua forma de expressão artística, alguma bulha igualmente proporcional ao seu talento. Como exemplo podemos citar Van Gogh que de muito denso chegou às vias de se mutilar ou Rimbaud que de tanta impetuosidade acabou envolvido com o tráfico de armas, isso sem mencionar a conturbada relação com Verlaine.
Existem também nossos camaradas brasileiros e entre esses o que pouca gente sabe é que João Cabral de Melo Neto era um grandíssimo hipocondríaco, a ponto de escrever uma poesia ao famoso ácido acetilsalicílico (Num Monumento a Aspirina).
Tudo bem. Ser hipocondríaco não é lá uma coisa tão grave, mas é alguma coisa. E vai servir de mote na nossa procura de sempre amenizar algum sentimento, no nosso caso coisas do coração.
E para esclarecer, antes que nos venham acusar de inapropriados pra a sociedade (se bem que ainda pairam dúvidas), nós não somos hipocondríacos, não temos talento para Marcinho VP e muito menos vocação para autos-flagelos. O que nos une a esse pessoal é a intensidade e a passionalidade.
Como todo mundo nessa vida, nós vivemos uma incansável busca de alguma coisa que nos preencha. Alguns dão a isso o nome de “busca pela felicidade”. Eu prefiro chamar de hedonismo exacerbado.
Hedonismo esse que faz com que procuremos meias miligramas em qualquer coisa que faça calar nossa tagarelice mental ou a nossa grande inquietude interna. Desde um sorvete de menta com chocolate numa tarde modorrenta a ¼ de algum comprimido tarja preta numa madrugada gelada e solitária.
Mas vejam bem. Esse “qualquer coisa” tem limites.
Não usamos drogas. Somos caretas. Mais moralistas que muita gente por aí, mesmo lançando mão de artifícios moralmente questionáveis a sociedade.
Em algum momento eu disse que somos exemplo de “bons moços”?
Em algum momento eu disse que não somos contraditórios?
Apenas duas regras nos conduzem nessa busca: não passamos em cima dos sentimentos de ninguém e não nos agredimos emocionalmente. Primeiro porque existe respeito ao próximo e segundo respeito muito maior a nós mesmos.
Agora você pode se perguntar: “Já que a busca é tão intensa, porque assim tão pouco? Apenas 0,5 mg?”.
É porque gostamos assim. Em pequenas doses. Pois o contrário propicia ao vício. Em grandes quantidades perde-se o gosto. Acaba-se o prazer, os efeitos.
E para quem sabe do que eu estou falando e que já se permitiu a 0,5 mg de alguma coisa, há de concordar que nada melhor que a explosiva sensação de ser transportado a um mundo onde nada de mau pode lhe acontecer. E acho que o que move a gente é o fato de esse mundo ser transitório. As vezes é desesperador, mas alivia saber que alguns caminhos a gente já conhece.
E assim que vai ser. A história poética das nossas descobertas. Não importam os meios, desde que a gente chegue lá e nosso hedonismo seja preenchido.
E vamos continuar assim até que nossos detalhes sejam percebidos.
terça-feira, 22 de abril de 2008
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