sábado, 23 de agosto de 2008

Sapiens

Entro na farmácia. Encosto no balcão e espero para ser atendido. Do meu lado a farmaceutica atende uma aparentemente mãe que busca medicamentos para cuidar de um ‘ralado’ em, pelo o que eu entendi, uma criança. Em cima do balcão um vidro de Rifocina, um de água oxigenada e um de Merthiolate.
Começo a prestar atenção na conversa das duas. Aliás, coisa de praxe minha. Prestar atenção na conversa dos outros e ficar supondo como seja a vida deles.
O que foi me instigando e me deixando sem entender era a quantidade de perguntas que a tal mãe fazia. Como assim uma pessoa a aquela altura da vida não sabia como tratar de um ferimento? E olha que ela nem era tão nova. E olha que a lesão nem era tão grande. Percebi isso quando ela fez um gesto em seu próprio braço para mostrar o tamanho.
Como ela não sabia a diferença de lavar com soro fisiológico ou com água oxigenada? Quando na verdade ás vezes é muito melhor lavar apenas com sabão de coco.
Como ela não sabia que de acordo com o tamanho e tipo de ferimento não se usa pomada pra não manter umidade e retardar a cura?
Como ela não sabia que é muito melhor não cobrir ferimentos seja com gaze ou Band-Aid? Machucado precisa respirar.
Como ela não sabia o que é Rifocina? Pelo jeito era até bem capaz de ela não saber o que era Merthiolate.
Aliás, Merthiolate perdeu completamente o sentido pra mim quando passou a ‘não arder’. Lembro de quando eu era criança e precisava dele sentia um certo prazer naquela ardência. Era como assumir uma mea-culpa. Uma espécie de auto-flagelo a que me submetia. Ou até mesmo uma espécie de sentimento de glória por um novo arranhão. Acho que todo menino teve isso.
Merthiolate se não arde, pra mim não cura.
Mas voltemos à farmácia.
De repente chega o balconista pra me atender, me libertando assim daquela situação de inconformidade. Fiz meu pedido. Paguei. Peguei meu embrulho e fui embora.
Saí pela rua pensando na mulher e em como coisas tão óbvias pra gente podem ser absolutamente impensadas pra outras. E mais, tenho a grande certeza de aquela mulher tem o conhecimento de coisas que pra mim devem ser o mais instigante mistério.
Moral da história: Cada ser humano carrega consigo uma sabedoria própria.

domingo, 22 de junho de 2008

Depois do Sábado, o Domingo

Terra e ar não foram feitos um para o outro.
Três cervejas.
Um almoço.
Uma soneca.
Falta agora a sua ligação.

domingo, 25 de maio de 2008

Masoquismo

Nas brigas internas entre coração e razão, procurando ouvir a tudo, não exercitei minha imparcialidade e acabei derrotada, num desequilíbrio ímpar.
Nas brigas eternas, acabei ficando surda e optando pelas sensações, em detrimento das vozes que já não ouvia.
Sempre confusa, sempre contundida, no entanto feliz. Felicidade genuína.
E sem ouvir as vozes, ouvi os sons que o mundo me fez.
Ouvi um bater, bater, bater... muito insistente.
E entre os que dizem e os que fazem, mesmo que seja dor, gosto mais das manufaturas.
Das marcas de dedos e dentes, gosto mais.
E assim resolvendo meu dilema, a razão dizendo e o coração batendo.
Bate um tanto mais, pois sou masoquista confessa.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Fluxo

O corpo reflete ao que apenas ele sente ou sabe. Como um grande pára-raio de sentimentos ele vai absorvendo do ambiente os cheiros e as lembranças deixadas por outros em um quarto escuro.
Depois de não ter mais onde armazenar tanto despreparo alheio o corpo arruma-se e começa a expelir.
Ás vezes vaza contido.
Mas a melhor forma mesmo de expelir é sem contenção.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Auge da loucura

E se engana quem diz que a loucura tem auge.
A loucura é constante, dorme e acorda na gente.
Dorme sedada, dopada e acorda na porrada.
Acorda numa solitária, quando o ser solitário não se basta.
Acorda num hospício, no mundo mais propício para sua evolução.
Acorda numa camisa de força, um dia acorda na forca.
Acorda numa camisa de vênus, num cheiro qualquer de desejo.
Mas ela teima em acordar. Teimosia é loucura às vezes.
Às vezes teimo na minha sanidade, teimo numa saudade.
E ela volta a adormecer.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

II

Mas o que ele sabia ainda menos, é que talvez só ele pudesse percebê-la. E as pirâmides eram feitas não de prazeres e gozos, mas sim das cartas de um tarô antigo, mofado e embolorado.
E que ao menor sinal, sentaria-se com ele, e ouviria seus lamentos. E deleitaria-se deles, com um bom martini.

mG

Mal sabia ele que enquanto sentado na mesa daquele bar escuro para lamentar-se, do outro lado da cidade ela construia pirâmides de prazeres, glorificando o próprio gozo de sentir a si mesma. Só ela. Para ela e para quem mais quisesse perceber.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Intravenosa

Nos dias de intravenosas eu me perco.
Me desconecto, me desconcentro e desconcerto.
Levei tanto tempo tentando consertar e no mais leve tremor, temor, cai o chão sob os meus pés.
Sou desorientada, desnorteada.
Eu não quero mais querer. Me impregnem de sedativos que me tirem a vontade.
Eu quero ser fria, gelada, quase-morta.
Quero cortar minha veia poética e vê-la sangrar.
Sangue é bonito. Vermelho é bonito. Quente é bonito.
Mas beleza é inútil. O sangue é amargo. Ser fria é útil.
Sangue frio é bonito e útil. Eu quero ter esse.
Me faz uma transfusão?
Me funde com alguém que arda como eu.
Não me cura da minha febre! Eu gosto dela.
É que ser quente doente é diferente.
Mas ser fria e sã seria muito melhor.
Me dê logo alguma razão. Injeta logo.
Nos dias de intravenosas eu me acho.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Altas Doses de Nós Mesmos

É nos dias de frio que a gente se entende. A bem da verdade a gente se entende durante todos os dias do ano, mas parece que quando o tempo muda a gente cria um grande sentimento de intensidade, amor e cumplicidade. Somos em cinco. Ficamos nós todos ali no quarto passando horas e horas ouvindo apenas o som do vento sul que sopra lá fora. Um é bem falante e muda de personalidade a todo momento, ele tem me feito aprender a aceitar as diferenças. Agora os outros três são mais quietos, me compreendem e me acalmam como ninguém. Juntos somos a nossa própria essência. Ali, nos bastamos e nos consolamos. Às vezes rimos alto e em outras choramos baixinho. Mas no final tudo dá certo, nos oferecemos a segurança necessária para os dias de vento. Para os dias de aconchego. Para o dia de nós mesmos.

Televisor. Edredom. Travesseiro. Controle-Remoto. Eu.

terça-feira, 29 de abril de 2008

Poética 0,5 mg

Eu não escrevo manifestos
pois tenho uma veia poética,
e ela me trai.
E me atrai para estas vertentes
de tempo que insiste na gente
gente insistente em criar tempo
em criar calos que não doam
em criar cascas grossas
carapaças protetoras
em criar casos, confusão
criar caos, ou então
só casos de amor maior
a gente inventa tanto
cria contos, aumenta pontos
mas a gente ri
ri da gente, ou um do outro
a gente "é tendência"
que tende pra um lado
pros dois lados ou nenhum
Ultrapassa barreiras
ou quebra a cabeça tentando
a gente é peça importante
neste mundo quebra-cabeça
peça rara, figura bela
a gente não tem nada de figurativo
é literal, literário,
a gente não se esconde da chuva
nem dentro do armário
a gente sai, anda, vê e assiste a tv
a gente pensa, pesa, pena
mas não cansa de tentar
a gente ama, ama, ama, ama...
amar é mais que tudo
o que a gente faz de melhor
e depois faz terapia
recorre a 0,5 mg, 600ml
porque gente não é de ferro

terça-feira, 22 de abril de 2008

Manifesto Zerocincomg

"Na verdade eles se entusiasmaram tanto com a paixão entre flâmulas que decidiram mudar o mundo. Num certo dia uma quantidade de 120 mil caixas de um famoso antidepressivo saiu com a seguinte bula: Trepai." (Química - Mara Coradello)

Todo grande gênio que se preze tem ou teve, além da sua forma de expressão artística, alguma bulha igualmente proporcional ao seu talento. Como exemplo podemos citar Van Gogh que de muito denso chegou às vias de se mutilar ou Rimbaud que de tanta impetuosidade acabou envolvido com o tráfico de armas, isso sem mencionar a conturbada relação com Verlaine.
Existem também nossos camaradas brasileiros e entre esses o que pouca gente sabe é que João Cabral de Melo Neto era um grandíssimo hipocondríaco, a ponto de escrever uma poesia ao famoso ácido acetilsalicílico (Num Monumento a Aspirina).
Tudo bem. Ser hipocondríaco não é lá uma coisa tão grave, mas é alguma coisa. E vai servir de mote na nossa procura de sempre amenizar algum sentimento, no nosso caso coisas do coração.
E para esclarecer, antes que nos venham acusar de inapropriados pra a sociedade (se bem que ainda pairam dúvidas), nós não somos hipocondríacos, não temos talento para Marcinho VP e muito menos vocação para autos-flagelos. O que nos une a esse pessoal é a intensidade e a passionalidade.
Como todo mundo nessa vida, nós vivemos uma incansável busca de alguma coisa que nos preencha. Alguns dão a isso o nome de “busca pela felicidade”. Eu prefiro chamar de hedonismo exacerbado.
Hedonismo esse que faz com que procuremos meias miligramas em qualquer coisa que faça calar nossa tagarelice mental ou a nossa grande inquietude interna. Desde um sorvete de menta com chocolate numa tarde modorrenta a ¼ de algum comprimido tarja preta numa madrugada gelada e solitária.
Mas vejam bem. Esse “qualquer coisa” tem limites.
Não usamos drogas. Somos caretas. Mais moralistas que muita gente por aí, mesmo lançando mão de artifícios moralmente questionáveis a sociedade.
Em algum momento eu disse que somos exemplo de “bons moços”?
Em algum momento eu disse que não somos contraditórios?
Apenas duas regras nos conduzem nessa busca: não passamos em cima dos sentimentos de ninguém e não nos agredimos emocionalmente. Primeiro porque existe respeito ao próximo e segundo respeito muito maior a nós mesmos.
Agora você pode se perguntar: “Já que a busca é tão intensa, porque assim tão pouco? Apenas 0,5 mg?”.
É porque gostamos assim. Em pequenas doses. Pois o contrário propicia ao vício. Em grandes quantidades perde-se o gosto. Acaba-se o prazer, os efeitos.
E para quem sabe do que eu estou falando e que já se permitiu a 0,5 mg de alguma coisa, há de concordar que nada melhor que a explosiva sensação de ser transportado a um mundo onde nada de mau pode lhe acontecer. E acho que o que move a gente é o fato de esse mundo ser transitório. As vezes é desesperador, mas alivia saber que alguns caminhos a gente já conhece.
E assim que vai ser. A história poética das nossas descobertas. Não importam os meios, desde que a gente chegue lá e nosso hedonismo seja preenchido.
E vamos continuar assim até que nossos detalhes sejam percebidos.